Crítica | Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre é sobre julgamento e pedras




 

Existe um peso sempre muito evidente durante Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre. É uma carga manifestada já na primeira cena, com uma apresentação escolar pública de Autumm (Sidney Flanigan) ditando o tom do filme. Ali, enquanto a adolescente está aparentemente desconfortável cantando e tocando violão, a plateia permanece fria, com direito a um grito de insulto de um sujeito que parece ser colega da protagonista — o que pouco importa.

A questão é que essa abertura é fundamental para o teor do filme. O incômodo de Autumm pode ser sentido. Há uma espécie de opressão por parte da plateia. Em meio a isso, ela chega a parar de tocar após a ofensa que escuta, mas respira, olha para frente e retoma a música. Desistir, portanto, não é uma opção para aquela adolescente. Ela precisa resistir e seguir seu caminho por mais que todos a olhem, julguem-na e possam, invariavelmente, lhe xingar.

Respira, olha para frente e retoma a música. (Imagem: Reprodução/Telecine)

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

O visível e o invisível

A bolha inflada que é a introdução não demora a respingar durante o desenvolvimento de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre. A diretora Eliza Hittman (de Ratos de Praia — filme de 2017), para manter uma noção sempre ameaçadora, trabalha alimentando o espaço fílmico que não é visto, ou seja: tudo o que está fora do quadro, daquilo que é visível para o público, tem tanta ou mais importância do que aquilo que pode ser observado.

Com isso, Hittman demonstra que não pretende guiar o filme pelo viés do choque imagético. Ao mesmo tempo, existe um choque sim, mas ele não se apoia nas imagens, mas nas sensações. Um exemplo claro — e até preliminar — é o momento em que Autumm resolve furar o nariz para colocar um piercing. Existe uma preparação quase que de suspense, com planos detalhes do alfinete de segurança sendo esquentado e closes no rosto, mas o momento do furo é cortado. Acontece, àquele ponto, uma pequena elipse que não permite a visualização do momento e, quando se mostra algo, nunca é o furo em si. Mas o impacto da dor pode ser bem transparente.

Plano detalhe do alfinete se segurança sendo esquentado. (Imagem: Reprodução/Telecine)

Essa fuga do explícito, ainda, está em como a diretora trata o tema — e em vários sentidos. Não é claro, por essa perspectiva, quem engravidou a protagonista, mas pode crescer uma noção no espectador de que foi o companheiro de sua mãe (Ted — interpretado por Ryan Eggold). Hittman não constrói isso por meio de palavras ou de situações comprometedoras, mas de um silêncio que é tanto de voz quanto de imagens.

Ópera silenciosa

Assim, Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre torna-se uma ópera do silêncio: Autumm, em nenhum momento, comenta sua situação diretamente para com a prima Skylar (Talia Ryder); faz exames sem que diga exatamente o que deseja; segue uma trajetória cheia de opressões; e mantém-se firme contra assédios — como o que acontece no metrô em um momento.

Ela (Autumm), que parece nunca desmoronar em meio a tanto, é a solista dessa ópera silenciosa de Hittman. Seu solo principal traz, junto a ele, o título do filme. A diretora, nesse momento, não poupa a atriz. Com a câmera imóvel, frontal, em primeiro plano e sem qualquer corte por mais de cinco minutos, é possível ver toda a dureza da expressão da protagonista enquanto não consegue dizer se nunca, raramente, às vezes ou sempre. As perguntas soam como lâminas, machucam, ferem mesmo… mas ela segue seu caminho dizendo, somente, que sim, que quer a presença daquela mulher, alguém que, para além da prima, parece a figura mais compreensiva do seu universo.

Nunca, raramente, às vezes ou sempre? (Imagem: Reprodução/Telecine)

Se a cena que dá nome ao filme é a mais claramente forte, há outra que, próximo ao fim, permite o surgimento de uma impressão de empatia pura. Quando Skylar permite que Jasper (Théodore Pellerin) lhe beije e lhe toque para que elas consigam retornar para suas casas — o que fica, finalmente, explícito pelo modo como Hittman filma a reação dela (de Skylar) —, Autumm demonstra que está ali com a prima ao segurar sua mão discretamente. Mas é uma discrição para o momento, não para o espectador. Isso porque a diretora, apesar de manter o silêncio sonoro das atitudes, prefere mostrar sem camuflagem os melhores sentimentos.

O sonoramente silencioso e imageticamente sonoro “estou aqui”. (Imagem: Reprodução/Telecine)

Pedras podem existir

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre é, finalmente, um drama que funciona, ainda, como um estudo de personagens. Autumm e Skylar são figuras das mais ricas do cinema recente e com duas das melhores atuações adolescentes dos últimos anos. O filme não é sobre aborto em si, mas sobre as sensações causadas por um mundo que julga, oprime, assedia e estupra; sobre um mundo que pode ser devastador para as mulheres. Nesse sentido, é como se Hittman tentasse trazer à tona o subjetivo, deixando as obviedades adolescentes e da confusão da cidade grande em um plano muito mais real — e, no caso, secundário.

Até porque são as sensações que alimentam a empatia e, de repente, pode ser que, através dela (da empatia), possa surgir algum sentimento que não julgue e não esteja disposto a atirar pedras. Aliás, julgamento e pedras podem existir, mas, em um filme que são mostrados um insulto público, um gerente (interpretado por Drew Seltzer) que exige beijar as mãos das funcionárias adolescentes, um padrasto estuprador e um assediador que coloca o pênis para fora da calça em frente a ela dentro do metrô, o alvo, aqui, nunca deveria ser Autumm.

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre está disponível no catálogo do Telecine.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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