10 dias que abalaram o São Paulo: o resumo da crise que derrubou Aidar
Por Redação Publicado 14 de outubro de 2015 às 11:23hs

Entre 3 e 13 de outubro, o Morumbi foi chacoalhado por trocas de acusações, brigas, e conspirações que culminaram com a renúncia do presidente, substituído por Leco

Em menos de duas semanas, a gestão de Carlos Miguel Aidar no São Paulo ruiu. A situação no clube já era tensa com a suspeita contratação de Iago Maidana, a participação da namorada de Aidar, Cinira Maturana, em vários negócios, incluindo o acordo com a Under Armour, e a novela sobre a continuidade de Juan Carlos Osório como técnico.

A seguir, um resumo dos acontecimentos que resultaram na queda do presidente tricolor.

A gestão Carlos Miguel Aidar à frente do São Paulo começou a ruir num sábado, dia 3 de outubro. Insatisfeito com a maneira como o presidente conduzia o clube, principalmente por conta do caso Iago Maidana, investigado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), o vice de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, resolveu levar um gravador escondido para uma conversa com Aidar. O áudio registrado por Ataíde seria devastador para o mandatário.

Na semana anterior, Ataíde ficou furioso ao ver opresidente se eximir da responsabilidade da transferência e citar seu nome. O vice se desentendeu com o presidente e exigiu não ser mais vinculado à negociação. Alguns relatos da discussão dão conta de que Ataíde chegou a colocar o dedo em riste.

O Radisson, na avenida Cidade Jardim, é um dos hotéis mais caros de São Paulo. Durante a gestão de Aidar, era ali que os diretores e vice-presidentes do São Paulo costumavam se reunir todas as segundas-feiras. Aidar pediu para Ataíde chegar um pouco antes dos demais, para ter uma conversa reservada com ele.

No encontro, o então vice não gostou de ouvir uma insinuação de que receberia dinheiro por uma comissão de um jogador e agrediu o presidente com um soco. Segundo testemunhas da cena, ouvidas pelo GloboEsporte.com, Aidar deixou o hotel falando que precisava procurar seu médico.

A briga havia sido revelada na noite de anterior pela coluna “Radar”, no site da revista Veja, e detalhada por todos os outros veículos de comunicação. A reação de vários dirigentes são-paulinos a esse episódio ajuda a entender o momento do clube: Aidar primeiro disse que não houve briga nenhuma, depois admitiu que houve uma “discussão acalorada”; cartolas que viram a briga chegaram a afirmar que nem sequer houve reunião. O resultado foi a “dupla queda” de Ataíde, que foi demitido por Aidar e também entregou seu cargo, e a saída coletiva de dirigentes. A crise política estava instalada, e ainda havia uma crise esportiva para ser resolvida.

O técnico Juan Carlos Osório aceitou a proposta que tinha da seleção mexicana e foi emborado São Paulo, que ficou dividido entre Diego Aguirre e Doriva para substituí-lo. Antes de sair, o colombiano sequer conversava com Aidar, pois não gostou de ouvir do próprio presidente para não confiar em Milton Cruz, seu maior parceiro desde o início no São Paulo. Amensagem crítica pedindo para “parar de inventar” do próprio Aidar também o incomodou.

De Brasília, onde fora para depor na CPI do Futebol, Aidar escolheu tirar o técnico da Ponte Preta, ex-volante do próprio São Paulo, para comandar o time – que briga pelo G4 no Brasileiro e está na semifinal da Copa do Brasil. Enquanto isso, acumulavam-se os pedidos de demissão de diretores e vice-presidentes.

Aidar apresentou o novo técnico, mas não quis dar entrevista. Mais tarde, reuniu-se com o Conselho Consultivo – um órgão formado por ex-presidentes e outros são-paulinos notáveis, sem poder de decisão, mas com grande influência no clube – e afirmou que não iria renunciar. Apresentou planos para o futuro, disse que escolheria uma nova diretoria e com ela poderia “governar”. Nas palavras de quem participou do encontro:

– Carlos Miguel estava absolutamente convencido de que não havia nada contra ele. Falava como se tivesse acabado de assumir, não como alguém sobre o qual pesavam tantas denúncias e tantas desconfianças.

Enquanto os notáveis estavam trancados num escritório de advocacia no Jardim Paulista, em São Paulo, tornava-se público um e-mail assinado por Ataíde Gil Guerreiro com uma série de denúncias contra Aidar. Por não ter conhecimento das acusações no momento da reunião, o tema não foi tratado pelos cardeais.

O e-mail de Ataíde foi publicado pelo GloboEsporte.com e por outros veículos. Ali, Ataíde detalhava que havia gravado Aidar – sem que ele soubesse – confessando várias irregularidades que cometeu no comando do clube. O presidente passou boa parte do dia reunido com o advogado Antonio Claudio Mariz de Oliveira, seu amigo e também um dos integrantes do “conselho de notáveis” do São Paulo. Na noite de sexta-feira, o então presidente do Conselho Deliberativo, Carlos Augusto Barros e Silva, o Leco, disse ao GloboEsporte.com que havia escutado a gravação feita por Ataíde, e que convocaria uma sessão do conselho para apresentação de provas contra Aidar. Naquela mesma noite, Aidar cancelou uma entrevista ao programa Esporte Espetacular, marcada para o dia seguinte.

Com a publicação do e-mail de Ataíde – e a certeza de que mais gente havia escutado a gravação comprometedora – a situação ficou insustentável. A toda essa pressão vinda do clube, somou-se outra, da própria família e dos sócios de Carlos Miguel Aidar. Mariana, sua filha, escreveu em sua conta no Twitter:

– Saindo da casa do meu pai. Eu e minhas irmãs tivemos uma longa conversa com ele, para entender tudo que está acontecendo. Só queremos a paz de volta em nossas vidas. Nem que para isso ele tenha que sair da presidência.

Carlos Miguel Aidar tomou no domingo a decisão de renunciar. Estava completamente isolado politicamente no clube – todos os grupos que o haviam apoiado antes ou depois da eleição, em abril de 2014, foram um a um deixando claro que não estavam mais ao lado do presidente. Ele também sofreu enorme pressão dos seus sócios no escritório de advocacia para renunciar. A crise afetou os negócios particulares dos dirigentes.

O presidente estava “demissionário”, o clube não tinha vice-presidentes nem diretores estatutários – que haviam ou entregado seus cargos, ou pedido demissão. E o CEO do clube, Paulo Ricardo de Oliveira, contratado um mês antes para substituir Alexandre Bourgeois, não havia sido informado por Aidar de suas intenções de renunciar. Nos últimos dias como presidente, Aidar “sumiu” até para os assessores pessoais. Eles, inclusive, souberam da sua saída do clube, agendada para terça-feira, pela imprensa, e depois foram demitidos por discordarem da conduta do presidente de não confirmar a saída para todos os veículos de reportagem que tentavam checar essa informação. O clube estava à  deriva.

Esperava-se uma reunião para as 18h, na qual Aidar entregaria sua carta de renúncia ao presidente do Conselho Deliberativo, Carlos Augusto Barros e Silva. Antes das 10h, essa reunião foi cancelada. “Não há clima”, dizia um cardeal tricolor que deveria estar nesse encontro.Aidar enviou um e-mail coletivo para todos os funcionários do clube, no qual se despedia. Um gaiato respondeu para todos: “Demorô”.

Aidar almoçou no restaurante de comida japonesa do Morumbi, pagou sua última conta na condição de presidente do clube e foi até o escritório de Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, onde entregou a Leco sua carta de renúncia pessoalmente para não ter chances de ver o documento vazar. Saiu de lá em seu Mini Cooper nas cores do São Paulo (lataria vermelha, detalhes em branco e preto) e não quis dar entrevista aos jornalistas que o esperavam no estacionamento do prédio, na Avenida Paulista.

– Carlos Augusto Barros e Silva agora é o presidente. Falem com ele. Vou pra casa.

E Aidar se foi. Pouco tempo depois, Leco convidou Ataíde Gil Guerreiro para retomar o cargo de vice-presidente de futebol.

Fonte: Ge

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